Mulheres na gastronomia: as muitas formas de transformar comida em trabalho, memória e futuro
Da cozinha de casa ao restaurante, do doce artesanal à pesquisa de ingredientes, mulheres ocupam diferentes lugares no food service e ajudam a reescrever a história da gastronomia brasileira.
Qual é a importância das mulheres na gastronomia?
As mulheres são fundamentais na gastronomia porque atuam em toda a cadeia do food service: cozinham, empreendem, administram restaurantes, formam equipes, pesquisam ingredientes, desenvolvem produtos, preservam tradições, criam comunidades, educam o paladar e constroem novas formas de relação com a comida. Sua presença não é novidade, mas agora o que queremos é dar foco à visibilidade de sua autoria.
A história da gastronomia costuma ser contada por nomes, restaurantes e pratos. Mas, antes de virar assinatura, um prato quase sempre passou por muitas mãos. Houve quem conhecesse o ponto, guardasse a receita, organizasse a mesa, comprasse os ingredientes, alimentasse uma família, formasse uma equipe e percebesse, antes de todo mundo, que havia ali uma possibilidade de negócio.
Muitas dessas mãos são de mulheres.
Não é preciso olhar apenas para as tendências mais recentes, para as cozinhas autorais ou para os prêmios internacionais. As mulheres já estavam ali quando a gastronomia ainda era chamada simplesmente de trabalho; quando a técnica aprendida em casa não recebia o nome de conhecimento; quando o cuidado era esperado, mas a autoria raramente era reconhecida.
Foi a partir dessa percepção que levei ao coletivo das Matildes, um grupo de WhatsApp criado pela minha brilhante amiga Antonia Leite Barbosa, do qual tenho enorme orgulho de fazer parte, o projeto Matildes Culinárias, que celebra sete mulheres que deixam sua marca na gastronomia carioca: Drica Reis, Cristiana Beltrão, Carolyna Vaz, Mariana Daiha Vidal, Elisa Mendes de Almeida, Marta Proto e Bianca Damaren. São trajetórias distintas, mas atravessadas por uma mesma disposição: criar, transformar e abrir caminhos. Na minha opinião, elas são uma amostra, muito potente, por sinal, da força das mulheres nesse setor. Aqui, aproveitei para incluir mais uma: a chef carioca do único restaurante do Rio comandado por uma mulher presente em todas as edições do Guia Michelin na cidade, Roberta Ciasca.
A pergunta, então, não é se as mulheres fazem parte da gastronomia. A pergunta é por que ainda precisamos reafirmar isso.
A mulher que cozinha também pode ser autora
Durante muito tempo, a cozinha foi associada ao feminino quando representava cuidado, obrigação ou serviço. A mesma cozinha se tornava território masculino quando vinha acompanhada de prestígio, remuneração, liderança e reconhecimento público.
Essa divisão nunca refletiu a realidade. Mulheres sempre produziram conhecimento culinário. O que faltou, muitas vezes, foi reconhecer esse conhecimento como técnica, trabalho e patrimônio. Faltou enxergar que preparar um alimento também envolve decisão, repertório, gestão, criatividade, negociação, pesquisa e visão de futuro.
Quando uma mulher abre um restaurante, ela não está apenas ocupando uma praça ou montando um cardápio. Ela está tomando decisões sobre identidade, fornecedores, equipe, experiência, preço, sustentabilidade e relação com o território. Quando cria um doce, uma conserva, um buffet ou uma marca, transforma uma habilidade em linguagem e, muitas vezes, em autonomia financeira.
É por isso que falar sobre mulheres na gastronomia não pode significar apenas listar chefs. A cozinha é maior do que a figura de quem aparece na finalização do prato.
Drica Reis: da cozinha do D.R.I. a novos caminhos
Começar por Drica Reis, do D.R.I., é reconhecer uma mulher que há anos faz parte da gastronomia carioca e que entende a cozinha como espaço de criação, acolhimento e negócio. À frente do restaurante e de projetos ligados à alimentação, Drica construiu uma trajetória marcada pela capacidade de transformar ideias em experiências e de perceber novas possibilidades para o trabalho gastronômico.
Sua história também mostra que uma chef ou restauratrice não precisa permanecer presa a um único formato. A cozinha pode se desdobrar em consultoria, produtos, novos negócios e outras formas de cuidar por meio da comida. Ao ampliar seu campo de atuação, Drica evidencia a versatilidade que muitas mulheres exercem diariamente, ainda que o mercado nem sempre reconheça todas as dimensões desse trabalho.
Drica Reis abre este percurso porque sua trajetória ajuda a lembrar que a força feminina na gastronomia não está apenas no prato servido. Está também na gestão, na adaptação, na coragem de recomeçar e na capacidade de criar caminhos quando os modelos existentes já não dão conta dos sonhos ou das necessidades.
Cristiana Beltrão conhece a força de transformar um restaurante em plataforma de pesquisa, identidade e inovação. À frente do Bazzar por mais de duas décadas e, hoje, como idealizadora do Instituto Bazzar, ela se dedica a investigar ingredientes, tradições e territórios, aproximando gastronomia, cultura e sustentabilidade.
Carolyna Vaz construiu uma trajetória que une cozinha, saúde e futuro. Natural chef e consultora, passou por buffets, restaurantes e projetos de formação. Ao pesquisar a jaca verde e criar preparos como o Jacalhau, mostrou que ingredientes subestimados podem ganhar novas leituras, valor e sabor. Hoje, amplia esse olhar para a alimentação regenerativa e a biodiversidade brasileira.
Mariana Daiha Vidal trocou a carreira de advogada pela gastronomia e se tornou chef, autora e empreendedora. À frente do bufê Mari Vidal e de livros como “Saboreando o Rio”, “Saboreando Lisboa” e “Saboreando Paris”, ela transforma comida em experiência, repertório e narrativa sobre as cidades.
Elisa Mendes de Almeida atua em outra frente essencial: a comunicação. Jornalista, colunista da Veja Rio e criadora de conteúdo, ela conta histórias da gastronomia e ajuda a aproximar restaurantes, receitas, profissionais e leitores. Também é embaixadora da Gastromotiva, conectando informação, cultura e impacto social. Soma-se ao histórico os livros “Cozinhar é amar” e “Cozinhar é doar”.
Marta Proto, gaúcha de Pelotas, levou ao Rio de Janeiro uma receita de família de bem-casados. Sua confeitaria transformou tradição, carinho e memória em negócio para casamentos, eventos e batizados, mostrando que preservar uma receita também pode ser uma forma de fazê-la circular e ganhar novos significados.
Da receita afetiva ao negócio de gastronomia
A trajetória de Bianca Damaren, fundadora da Segredos de B, mostra como uma receita pode se transformar em categoria de mercado. Depois de anos no mundo corporativo, Bianca decidiu aproximar a maternidade e as panelas. Em 2015, começou a empreender com doces e encontrou uma oportunidade no mercado de festas: reinventar a palha italiana, um clássico brasileiro, em formatos, recheios e apresentações pensados para celebrações.
O ponto mais interessante dessa história não é apenas o doce. É o olhar da empreendedora. Bianca percebeu uma lacuna, pesquisou, testou, criou uma apresentação própria e encontrou uma maneira de fazer um produto afetivo circular em um ambiente de alto padrão. As palhas italianas redondas, recheadas e em formato de torta passaram a carregar uma assinatura.
A história também lembra algo que vale ser dito: apesar do nome, a palha italiana é um doce brasileiro. Reinventá-la, portanto, é também participar da conversa sobre identidade culinária, inovação e repertório nacional.
Entre a receita de família e o produto de celebração, existe uma cadeia inteira de decisões. Existe posicionamento, design, produção, relacionamento com o cliente e a coragem de sair do óbvio.
Quando cozinhar também é cuidar do planeta
A trajetória de Carolyna Vaz representa outro caminho. Natural chef e consultora, ela aproxima gastronomia, saúde e sustentabilidade em buffets, restaurantes e projetos de formação. Sua pesquisa com a jaca verde, da qual nasceram o Jacalhau e outras receitas autorais, mostra como um ingrediente subestimado pode ganhar novas leituras, valor e sabor. Mais recentemente, seu trabalho se aproxima da alimentação regenerativa e da biodiversidade brasileira, ampliando a pergunta sobre o que, e como, vamos comer.
Roberta Ciasca: consistência, amizade e liderança
Roberta Ciasca ocupa um lugar especial nesta história. Minha amiga desde a infância, quando convivíamos nas aulas de dança da Carlota Portella, ela construiu uma trajetória que acompanho com admiração: chef e restauratrice, está à frente do Miam Miam, do Brota e do Libô, no Rio de Janeiro. Em 2026, o Miam Miam completa 20 anos, uma marca que diz muito sobre consistência, identidade e capacidade de renovar um negócio sem perder sua personalidade.
Seu trabalho também mostra como a liderança feminina se manifesta no dia a dia de um restaurante. Não se trata apenas de criar pratos, mas de formar equipes, cuidar da experiência, escolher caminhos e sustentar uma visão ao longo do tempo. O Miam Miam e o Brota integram a seleção Bib Gourmand do Guia Michelin, reconhecimento que valoriza qualidade e bom custo-benefício. Ver Roberta ocupar esse espaço, com o Libô ampliando sua atuação, é também reconhecer a amiga de infância como uma profissional que transformou talento, repertório e trabalho em uma presença relevante na gastronomia carioca.
As mulheres que fazem a gastronomia acontecer
O recorte das Matildes Culinárias é potente porque não apresenta uma única ideia de sucesso. Ele reúne mulheres com experiências e especialidades diferentes, mostrando que a gastronomia é uma rede de profissões, saberes e formas de liderança. Ao lado de Drica Reis, estão Cristiana Beltrão, Carolyna Vaz, Mariana Daiha Vidal, Elisa Mendes de Almeida, Marta Proto e Bianca Damaren, sem contar a Roberta Ciasca, com espaço especial no meu coração. Algumas construíram negócios, outras ampliaram a conversa sobre ingredientes, formação, sustentabilidade, memória e inovação. Todas ajudam a mostrar que existe mais de uma maneira de fazer a gastronomia acontecer.
Em conjunto, elas compõem um mapa possível da força feminina no setor: Drica representa a gestão e a reinvenção; Cristiana, a pesquisa e a valorização dos territórios; Carolyna, a sustentabilidade e a biodiversidade; Mariana, a experiência gastronômica e a autoria; Elisa, a comunicação; Marta, a tradição transformada em negócio; Bianca, a inovação aplicada a um clássico brasileiro; e Roberta traz a técnica aliada à paixão e consistência.
| Papel na gastronomia | O que esse trabalho movimenta | O que precisa ser reconhecido |
|---|---|---|
| Chef, cozinheira e criadora | Técnica, sabor, repertório e identidade | A cozinha como autoria, não apenas execução |
| Restauratrice e empreendedora | Negócio, equipe, experiência e inovação | A gestão como parte da criação gastronômica |
| Confeiteira e desenvolvedora de produtos | Afeto, celebração, design e mercado | O doce como produto, linguagem e estratégia |
| Consultora e educadora | Formação, transmissão de conhecimento e mudança de hábitos | Ensinar também é transformar o setor |
| Pesquisadora de ingredientes | Biodiversidade, aproveitamento e novas possibilidades | Ingrediente esquecido também pode ser patrimônio e futuro |
| Articuladora de comunidade | Visibilidade, redes de apoio e circulação de narrativas | Nenhuma transformação acontece de forma isolada |
| Guardiã de memória e tradição | Continuidade, pertencimento e identidade cultural | Preservar não é repetir: é manter vivo e renovar |
Drica Reis, Cristiana Beltrão, Carolyna Vaz, Mariana Daiha Vidal, Elisa Mendes de Almeida, Marta Proto, Bianca Damaren e Roberta Ciasca aparecem, nesse conjunto, não como personagens de uma coleção estática, mas como parte de uma cadeia viva. Cada uma aponta para uma dimensão da gastronomia. Juntas, ajudam a deslocar o olhar da mulher como presença naturalizada na cozinha para a mulher como profissional, estrategista, autora, pesquisadora e liderança.
A gastronomia feminina não é um nicho
Há uma armadilha em falar de “gastronomia feminina” como se estivéssemos descrevendo um segmento separado. Mulheres não cozinham apenas para mulheres. Mulheres não empreendem apenas em negócios considerados delicados. Mulheres não pesquisam apenas ingredientes associados ao cuidado.
Elas estão em cozinhas de alta produção, restaurantes de bairro, padarias, confeitarias, buffets, laboratórios, escolas, eventos, bares, projetos culturais, cooperativas, institutos e negócios de tecnologia e alimentação. Estão na linha de frente e também nos bastidores, onde decisões importantes são tomadas.
A própria cobertura contemporânea do setor já reúne chefs premiadas, empreendedoras que comandam restaurantes e padarias e profissionais à frente de projetos culturais e sociais. A gastronomia aparece, assim, como espaço de criação, identidade e impacto social, e não apenas como entretenimento ou consumo.
Quando uma mulher lidera uma equipe, ela também ajuda a definir que tipo de ambiente de trabalho será construído. Quando cria uma escola ou um projeto de formação, amplia o acesso à técnica. Quando organiza uma rede, faz com que outras histórias tenham onde circular. Quando nomeia o próprio trabalho, muda a maneira como o mercado enxerga aquela atividade.
O que muda quando elas contam suas próprias histórias
Existe uma diferença entre ser incluída na história e poder contar a própria história.
A primeira situação pode produzir uma fotografia: mulheres aparecem, são celebradas e recebem um espaço. A segunda produz movimento. Quando as próprias protagonistas narram seus caminhos, entram em cena as dúvidas, as escolhas, as mudanças de carreira, a maternidade, o dinheiro, o cansaço, a descoberta de um ingrediente, o risco de abrir um negócio e a insistência diária necessária para fazê-lo continuar existindo.
No caso de Roberta Ciasca, contar a própria história também é sustentar uma trajetória construída ao longo do tempo. Em 2026, o Miam Miam completa 20 anos, revisitando pratos marcantes sem perder sua identidade. O restaurante recebeu prêmios desde o primeiro ano e mantém, desde 2016, o selo Bib Gourmand do Guia Michelin, estando presente em todas as edições do guia no Rio de Janeiro. À frente também do Brota e do Libô, Roberta mostra que sua história não se resume ao reconhecimento de uma chef, mas inclui a capacidade de criar, administrar, renovar e manter vivos negócios gastronômicos com personalidade.
No caso de Bianca, a narrativa não é a de uma doceira que encontrou um produto. É a de uma administradora que reconheceu uma oportunidade, construiu diferenciação e praticamente criou uma nova linguagem para um doce no mercado de festas. No caso de Carolyna, não é apenas a história de uma profissional que cozinha com ingredientes naturais. É a de alguém que conecta saúde, sustentabilidade, biodiversidade e criatividade para imaginar o futuro da alimentação.
Essa mudança de enquadramento importa. Ela tira as mulheres do lugar de inspiração genérica e as devolve ao lugar da complexidade: profissionais que tomam decisões, assumem riscos, desenvolvem método, criam valor e enfrentam contradições.
Uma mesa feita de muitas mulheres
A gastronomia brasileira não nasceu pronta. Ela foi construída por encontros, deslocamentos, trocas, disputas, adaptações e memórias. Também foi construída pelo trabalho invisível de mulheres que guardaram conhecimentos, alimentaram comunidades e criaram maneiras de fazer com o que havia disponível.
Hoje, outras mulheres ampliam esse legado em restaurantes, confeitarias, buffets, projetos de sustentabilidade, negócios autorais, espaços de formação e iniciativas de valorização cultural. Elas não estão apenas ocupando lugares que antes lhes eram negados. Estão transformando o significado desses lugares.
Uma cozinha pode ser: negócio, laboratório, escola, arquivo e território de inovação. Pode ser uma forma de cuidar do planeta. Pode ser uma maneira de uma mulher reconstruir sua vida profissional, como Bianca. Pode ser a ferramenta para aproximar saúde, sabor e biodiversidade, como Carolyna. Pode ser, ainda, tudo isso ao mesmo tempo.
As Matildes Culinárias nos lembram que não existe uma única maneira de fazer gastronomia e muito menos uma única maneira de ser mulher na gastronomia.
Há mulheres que abrem restaurantes. Há mulheres que criam produtos. Há mulheres que estudam ingredientes. Há mulheres que formam equipes. Há mulheres que escrevem, pesquisam, comunicam, cuidam, lideram e inventam novos caminhos.
A história da gastronomia também é feita por elas. E muitas dessas histórias ainda precisam ser contadas. Não como exceção, mas como parte central do que o food service brasileiro é e pode vir a ser.
Este conteúdo foi produzido por Cynthia Jacques, colunista convidada do Mundo Food Service. A autora responde integralmente pela apuração, redação e curadoria das informações aqui apresentadas.
Fundadora e diretora de comunicação da agência digital e de conteúdo Idea Shake e fundadora da KIDS, um site e uma revista voltados ao universo infantil, às famílias e à cultura contemporânea.
Atua nas áreas de comunicação, conteúdo, estratégia, pesquisa de tendências e inovação. Tem MBA em Neurociência, Consumo e Marketing, formação que fortalece seu interesse por comportamento, comunicação e relações de consumo.
Sua experiência também inclui atuação acadêmica e educacional, além da produção de conteúdos para segmentos como saúde, análises clínicas, casamentos, marketing digital, família, infância e bem-estar.
Gosta de conectar ideias, identificar novos movimentos e transformar temas complexos em conteúdos claros e relevantes.
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