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Foi a minha família que me ensinou: restaurante é ponto de encontro

Meu pai nasceu em 1947 no Pico dos Regalos, uma antiga vila portuguesa localizada no município de Vila Verde, em Portugal. Filho mais novo de dez, de uma mãe solo que se mudou para o Brasil para fugir da ditadura de Salazar, passou fome e teve que trabalhar cedo. Foi garçom e chegou ao cargo de maître do saudoso Regine’s. Como um bom pescador, ele tem boas histórias da época e das pessoas em voga no período. Quando chegou ao Brasil, por aqui já estava o irmão Edgar Tinoco. Eles eram bem próximos.

Meu tio Edgar fundou, na Rua Barata Ribeiro, o restaurante português Ponto de Encontro.

A casa contava com uma lojinha de doces portugueses, feitos pelas minhas primas e minha avó. Para uma criança formiguinha, aquilo ali era um verdadeiro parque de diversões. Eu admirava aquela vitrine repleta de ninhos de ovos perfeitos, de barrigas de freira, de pastéis de nata, de mais de uma penca de doces conventuais e também de tortas de chocolate e brigadeiros. Aquele pequeno espaço vivia cheio, e os pedidos eram disputados. Além de admirar a confeitaria da família, eu era vidrada na máquina registradora que fazia o dinheiro dessa parte da família entrar.

No cardápio do restaurante, pratos como frango à cubana, filé mignon ao molho madeira, supremo de frango, lindas batatas prussianas, estrogonofe, cozido e profiteroles.

Outro objeto de admiração da mini Ivy era a máquina que fechava a tampa das quentinhas de alumínio dos pedidos para viagem. E eram muitos, viu? O restaurante era meio escurinho, tinha paredes de madeira e exibia ali um quadro que se tornou presente na casa de todos da família (exceto na minha, por conta do senso estético da minha mãe. rsrsrs). A grande piada era a imagem de um cavalo cujo nome é “Filho da Puta”.

Minha avó morava no prédio em cima do Ponto de Encontro e, quando ela abria a porta do apartamento para a minha visita, um cheiro forte de ovos me invadia e viraria depois pura memória afetiva. É que minhas primas estavam ali, na cozinha, preparando os trabalhosos e delicados fios de ovos. Desde pequena, encaro e degusto pratos pesados. E minha comida preferida, pasmem, era a galinha ao molho pardo da vó Ema. O que era uma quase tortura para a minha mãe, que torcia a cara para a iguaria, mas ficava feliz porque recebia como opção o supremo de frango com guarnição à francesa diretamente da cozinha do restaurante do cunhado. Visitar essa casa era legal também porque, num quarto de visitas, tinha uma foto emoldurada do Pelé com a Xuxa, clientes do meu tio.

O Ponto de Encontro patrocinava um programa chamado “Almoço com as estrelas”, do “canal 6”, como me contou minha mãe. E era comum ver famosos desfrutando da boa mesa da casa.

Ter um restaurante nos anos 1980, com comida portuguesa comandado por lusitanos mesmo, implicava em conseguir os ingredientes “da Terrinha”, e meu tio era bom nisso. Tinha uma excelente rede de contatos em Portugal, mas, principalmente, na alfândega do Galeão. Os agentes da Receita Federal do aeroporto viraram, com a história do restaurante, amigos de Edgar.

Meu tio faleceu em meados dos anos 1990 por conta de um câncer no estômago. A vida é pura ironia, não é mesmo? O Ponto de Encontro encerrou as atividades, pois nenhum dos filhos deu sequência ao negócio. Minha prima Lola, braço direito do meu tio, tem um quiosque de doces e comidinhas no shopping dos antiquários da Siqueira Campos, e a minha prima Virgínia tem uma fábrica de doces portugueses. Com as minhas primas, com a minha avó, com o meu pai e com o meu tio, aprendi a respeitar e valorizar pessoas e espaços que prezam pela nossa restauração.

Algumas pessoas não sabem, mas a palavra restaurante vem do latim restaurante. E os primeiros lugares que serviam refeições tinham esse nome porque restauravam a força e a saúde das pessoas.

Ivy Tinoco, colunista convidada do Mundo Food Service


Este conteúdo foi produzido por Ivy Tinoco, colunista convidada do Mundo Food Service. A autora responde integralmente pela apuração, redação e curadoria das informações aqui apresentadas.

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