CNC Tech Day 2026: os destaques de Amazon, iFood, Microsoft e outros no Museu do Amanhã
Em resumo
- O CNC Tech Day 2026, promovido pelo Sistema CNC-Sesc-Senac no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, reuniu nove empresas: Amazon, Stone, Mercado Livre, Uber, Google Cloud, Equity Group, iFood, Meta e Microsoft.
- Google Cloud, CNC, Senac e Sesc assinaram acordo de cooperação técnica para educação profissional, qualificação de trabalhadores e inclusão social.
- O iFood defendeu que o ciclo tecnológico acelera, que o departamento de inovação isolado cria silos e que o orçamento anual deve ser realocado durante o ano.
- Programas para pequenos negócios foram apresentados: Performa Mais (Senac) e Potencialize com a Meta.
- O consenso entre os palestrantes: a IA só gera resultado com foco no cliente, cultura e qualificação das pessoas.
Há muito tempo eu não participava de um evento de um único dia tão rico quanto o CNC Tech Day 2026. No Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, nove executivos de Amazon, Stone, Mercado Livre, Uber, Google Cloud, Equity Group, iFood, Meta e Microsoft passaram pelo palco com um fio comum: a inteligência artificial só gera resultado quando está ligada ao cliente, à cultura da empresa e à qualificação das pessoas. Parabéns à CNC, ao Sesc e ao Senac pela curadoria e pela organização, que transformaram a segunda edição em uma troca real de experiências, e não em uma vitrine de produtos.
De todas as falas, a que mais me fez pensar foi a de Diogo Barreto, presidente do iFood. Ele poderia ter exibido números (citou mais de R$ 12 bilhões em vendas mensais), mas preferiu mostrar como a empresa pensa. Dois pontos merecem destaque.
O primeiro é a leitura de ciclos. Apoiado em Kondratiev e Carlota Perez, Barreto lembrou que as tecnologias passam por fases de surgimento, euforia, virada, difusão e maturidade, e que a velocidade desses ciclos só aumenta. O erro do líder, segundo ele, é pensar de forma linear e projetar o futuro com base no passado, como no gráfico em que as previsões de energia solar ficaram sempre muito abaixo da realidade. Na minha leitura, o recado é que a pergunta deixou de ser "adotar ou não a IA" e passou a ser "em que ponto do ciclo está o meu negócio e tenho estrutura para atuar nos dois lados dele".
O segundo é a provocação sobre o departamento de inovação e o orçamento. Para Barreto, separar uma área que "sabe inovar" de outra que "vive no passado" cria silos. Ele defende que todos sejam "ambidestros": o diretor financeiro, por exemplo, não deve cobrar retorno e VPL de uma ideia ainda em teste, só quando ela mostrar escala. Do mesmo modo, atacou o rito do orçado versus realizado, que obriga a prever em janeiro o que ocorrerá em dezembro. No iFood, a meta é fixa, mas o dinheiro é realocado durante o ano para onde o teste deu certo. É um incômodo útil para o comércio, onde o orçamento anual costuma ser sagrado. Vale ressalvar que nem todo varejista tem o caixa e a escala do iFood, mas o princípio vale para qualquer porte: testar barato, decidir por evidência e não esperar o dia 1º de janeiro para mudar de rota.
A seguir, o resumo de cada convidado, na ordem em que subiram ao palco.
Quem não pôde acompanhar o evento pode assistir à transmissão completa neste link.
Ricardo Perez, Amazon: 15 anos de investimento e foco no cliente
O diretor de categorias de varejo da Amazon no Brasil mostrou como a empresa se instalou no país ao completar 15 anos de operação. Segundo ele, foram R$ 75 bilhões investidos, cerca de R$ 19 bilhões em cada um dos últimos dois anos, o que faz do Brasil a subsidiária que mais recebeu aportes recentemente.
O dinheiro foi majoritariamente para logística, com entregas em todas as cidades e o serviço Amazon Now, de entrega em até 15 minutos. A Amazon emprega mais de 55 mil pessoas, direta e indiretamente, e reúne cerca de 110 mil vendedores parceiros: 99% são micro ou pequenas empresas, e 80% das vendas vão para fora do estado de origem do vendedor.
Perez também citou a ferramenta de autopublicação KDP, com mais de 400 mil obras em português, a Alexa 2.0 com IA embutida e programas como o Mais por Menos. Fechou explicando o "círculo virtuoso" desenhado por Jeff Bezos: cliente satisfeito gera tráfego, que atrai vendedores, que ampliam o catálogo e geram escala, e a economia de custos volta ao cliente em preço menor.
Augusto Lins, Stone: ouvir o cliente todos os dias
O fundador da Stone defendeu que toda empresa quebra por falta de cliente e que a transformação digital muda o comportamento do consumidor mais rápido do que as empresas percebem. Lembrou a sequência de digitalizações no Brasil (pandemia, auxílio emergencial, Pix, Open Finance) e alertou que a jornada de compra já começa em assistentes de IA, o que obriga sites e marcas a se ajustarem para serem encontrados. Para ele, em breve agentes de IA também farão as compras.
Contou que a Stone nasceu de uma pesquisa com clientes sobre falta de transparência, atendimento ruim e preço, e que a inovação (como transformar o celular em maquininha) vem do hábito de escutar o cliente. Deixou cinco dicas: repetir todo dia o foco no cliente, aceitar que inovar exige risco, aprender continuamente, colaborar e adotar IA. Para quem não sabe por onde começar, sugeriu escolher um problema ligado a tempo: na Stone, o fechamento do balanço caiu de 30 para 2 dias.
Luiz Augusto Vergueiro, Mercado Livre: logística como motor do comércio
O diretor sênior de operações logísticas contou como o Mercado Livre passou de um modelo em que o vendedor combinava o frete por mensagem para uma rede própria. Em seis anos, a parte da rede operada pela empresa saltou de 20% para mais de 96%, as entregas em até 48 horas foram de 20% para 77% e a empresa fecha o ano com 40 centros de fulfillment. Anúncios com produto no fulfillment vendem 5,2 vezes mais do que os de dropshipping.
A operação já tem mais de 300 robôs, que reduziram em 20% o tempo de processamento dos pedidos, e a maior frota elétrica de logística do país. A queda do piso do frete grátis de R$ 79 para R$ 19 ampliou o volume e abriu espaço para itens de menor valor. A companhia tem 131 milhões de compradores únicos e cerca de 3 bilhões de pacotes por ano, e Vergueiro defendeu que comércio físico e online andam juntos.
Silvia Pena, Uber: inovação é a solução que o usuário nem percebe
A presidente da Uber no Brasil, que completou 10 anos na empresa um dia antes, disse que inovação não é algo futurista e complexo, e sim a resposta invisível a uma necessidade do dia a dia. Segundo ela, mais de 140 milhões de brasileiros já usaram o aplicativo e mais de 5 milhões de motoristas geraram renda na plataforma. Um estudo da FGV indica que cada R$ 1 investido na operação gera quase R$ 13 na economia.
Silvia mostrou como a crise de 2020 originou o Uber Envios e citou também Uber Empresas, Direct e Advertising (mais de US$ 2 bilhões de faturamento global). Anunciou R$ 2 bilhões para expandir os centros de tecnologia, incluindo um no Rio com capacidade para 200 engenheiros. Destacou o Uber Mulher como produto "made in Brazil" e disse que a mobilidade do futuro será compartilhada, elétrica e autônoma.
Luiz Ávila, Google Cloud: a era do "Homo Imaginans"
O head de Enterprise Sales para a América Latina do Google Cloud abriu com uma provocação: por que humanos ainda sobem ao palco se uma IA poderia entregar uma fala mais precisa? Sua resposta é que a imaginação, e não o conhecimento, é o que diferencia as pessoas. Citou Einstein e o cientista Demis Hassabis, que usou a mesma técnica de um programa campeão de Go para mapear 300 mil proteínas e recebeu o Nobel de química.
Ávila apontou que a IA tem efeito "nivelador": estudo com cerca de 5 mil pessoas no BCG mostrou a distância entre consultores juniores e seniores diminuindo. Defendeu repensar a educação corporativa e encerrou com um vídeo sobre um pai que usou o Gemini para entender a doença rara do filho e acionar pesquisadores. Na sequência, Google Cloud, CNC, Senac e Sesc assinaram acordo de cooperação técnica para educação profissional, qualificação de trabalhadores e inclusão social.
João Kepler, Equity Group: clareza antes da tecnologia
O CEO do Equity Group e cofundador da Bossa Invest, embaixador do programa Performa Mais, argumentou que a IA amplifica o que já existe: dá velocidade a quem tem clareza e multiplica a confusão de quem não tem. Listou "pontos cegos" comuns do pequeno empresário, como a urgência permanente, a dependência de clientes e bancos, a precificação errada, a falta de acordo entre sócios e a desorganização. Citou ainda pesquisa segundo a qual 52% dos pequenos negócios brasileiros pesquisam o tempo todo em IA, contra 21% nos Estados Unidos.
A resposta, disse, é educação. O Performa Mais, desenvolvido pelo Senac, oferece cursos rápidos, diagnóstico do negócio e um hub de parceiros com descontos e ferramentas. Começa gratuito e passa a ter valores acessíveis conforme o empresário avança.
Diogo Barreto, iFood: ciclos, velocidade e cultura ambidestra
O presidente do iFood, que disse vender hoje mais de R$ 12 bilhões por mês, explicou o crescimento da empresa a partir de ciclos tecnológicos e da aceleração da capacidade computacional. Sua tese é que líderes erram ao pensar de forma linear e ao separar a inovação em um departamento isolado. Defendeu a "ambidestria": a mesma equipe otimiza o negócio maduro e explora o novo, e o diretor financeiro, por exemplo, não cobra retorno de uma ideia em fase inicial.
Na prática, o iFood segue a regra "seja brutal com os fatos, nunca com as pessoas", discute só metas amarelas e vermelhas nas reuniões mensais, realoca orçamento durante o ano em vez de seguir o orçado e revisa as políticas internas anualmente. Os testes começam simples e baratos: o programa Hits responde por 25% das vendas e o Clube tem 16 milhões de assinantes. A empresa também opera três rotas de drone aprovadas pela Anac.
Verônica Roll, Meta: o celular como plataforma de negócio
Responsável pelo relacionamento da Meta com o setor privado e associações, Verônica mostrou que o WhatsApp está em 99% dos celulares brasileiros e responde por 82% das vendas dos pequenos negócios. Descreveu um ciclo de três etapas: descoberta no Instagram, conversão no WhatsApp (com recursos do WhatsApp Business, como catálogo, mensagens automáticas e etiquetas) e retenção com campanhas para clientes fiéis.
Apresentou o Meta AI como "assistente" para microempresas, em que 59% têm uma única pessoa na operação, e o Live Ads, voltado a contas com mais de 1.000 seguidores. Divulgou o programa Potencialize com a Meta, fruto de acordo recente com a CNC, e alertou para mais de 150 projetos de lei sobre publicidade digital, incentivando sindicatos e associações a participar do debate regulatório.
Guilherme Araújo, Microsoft: a empresa de fronteira
O vice-presidente de vendas da Microsoft Brasil apresentou o conceito de "empresa de fronteira", que coloca a IA no centro do modelo de negócio. Com base no Work Trend Index 2026, afirmou que o receio dos profissionais mudou de "a IA vai me substituir" para "vou ficar para trás se não aprender a usá-la". Mostrou que o custo unitário do token caiu 10 vezes em três anos, enquanto o consumo cresceu 94 mil vezes, e que esperar o preço baixar não é estratégia.
Descreveu um ciclo de aprendizado contínuo que combina capital humano e capital de tokens, com cinco elementos: controle, capacidade, escolha, custo e composição. Contou que a Microsoft tem cerca de 250 mil agentes internos e apresentou o portfólio da empresa (Copilot, IQ, Agent 365, Foundry e Defender). Fechou defendendo tecnologia, capacidade e colaboração em escala para elevar a competitividade do país.
Perguntas frequentes sobre o CNC Tech Day 2026
Quem participou do CNC Tech Day 2026?
Executivos de Amazon, Stone, Mercado Livre, Uber, Google Cloud, Equity Group, iFood, Meta e Microsoft, além da liderança do Sistema CNC-Sesc-Senac.
Onde foi o CNC Tech Day 2026?
No Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com transmissão online.
O que foi assinado com o Google Cloud?
Um acordo de cooperação técnica entre CNC, Senac, Sesc e Google Cloud, voltado a educação profissional, qualificação de trabalhadores, assistência social e inclusão.
Qual foi a principal provocação do iFood?
Diogo Barreto, presidente do iFood, criticou o departamento de inovação isolado e o orçamento anual rígido, e defendeu empresas "ambidestras", que otimizam o negócio atual e exploram o novo ao mesmo tempo.
O que são o Performa Mais e o Potencialize com a Meta?
O Performa Mais é um programa do Senac com cursos rápidos, diagnóstico e hub de parceiros para pequenos empresários. O Potencialize com a Meta é um programa de capacitação em marketing digital fruto de acordo da Meta com a CNC.
Onde assistir à gravação do evento?
A transmissão completa está disponível no YouTube.
Foto: Bruno Tamm Rabello / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Este conteúdo foi produzido por Fabio Costa, colunista convidado do Mundo Food Service. O autor responde integralmente pela apuração, redação e curadoria das informações aqui apresentadas.
CEO da Idea Shake Digital e cofundador da Mundo Food Service. Escrevo sobre IA, automação, marketing e transformação digital aplicada ao food service e negócios.
O Mundo Food Service é uma comunidade que conecta fornecedores aos bares, restaurantes e lanchonetes, oferecendo conteúdo estratégico, ferramentas e soluções para impulsionar o setor de alimentação fora do lar.




