Wonder estreia robô que monta 500 tigelas por hora e mira num futuro sem cozinheiros
A startup de tecnologia para restaurantes Wonder, do empreendedor Marc Lore, deu mais um passo rumo a um sonho antigo do setor: uma cozinha totalmente autônoma. Em agosto, a empresa lançou o Infinite Makeline, um sistema robótico de montagem de refeições que já opera em sua unidade de Midtown East, em Nova York.
O que a máquina faz
O Infinite Makeline consegue produzir até 500 tigelas por hora, combinando 68 ingredientes diferentes, de alface romana a atum, frango e cenoura. As tigelas se deslocam sobre uma esteira enquanto braços e dispensadores despejam os ingredientes por cima, um processo que automatiza cerca de 80% do preparo em pouco mais de três minutos. No fim da linha, funcionários humanos entram em ação para adicionar molhos e os últimos retoques antes da embalagem.
Segundo Kale Rogers, cofundador da Spyce e hoje diretor sênior de robótica da Wonder, a unidade de Midtown já consegue produzir pratos de seis marcas próprias da empresa (saladas, bowls mexicanos, mediterrâneos e poke), todos saindo da mesma cozinha compacta. “Praticamente qualquer coisa que possa ir para uma tigela ou um prato”, resume Rogers.
A tecnologia por trás do sistema não nasceu na Wonder. Ela vem da Spyce, startup fundada por ex-alunos do MIT e depois comprada pela rede de saladas Sweetgreen. No fim do ano passado, a Wonder pagou US$ 186,4 milhões pela tecnologia, batizada de Infinite Kitchen pela Sweetgreen, que segue operando cerca de três dezenas dessas máquinas sob um acordo de licenciamento.
O plano de Marc Lore
Lore, que já vendeu duas empresas de e-commerce (Quidsi e Jet.com) para Amazon e Walmart antes de comandar a divisão digital do Walmart nos EUA, aposta que a automação em larga escala vai reduzir custos de mão de obra e operação: economia que, segundo ele, será repassada ao consumidor final.
“O objetivo é fazer com que o preço da comida entregue na sua porta fique mais barato do que pedir delivery e cozinhar em casa”, disse Lore à Fast Company. “Alimentar famílias com 21 refeições por semana é o objetivo final.”
A Wonder, avaliada em US$ 9 bilhões após uma rodada Série D de US$ 650 milhões fechada em julho, já opera 160 unidades, a maioria na Costa Leste dos EUA. A empresa também cresce por meio de aquisições: comprou a Blue Apron por US$ 103 milhões em 2023 e o Grubhub por US$ 650 milhões em 2024. A previsão é levar o Infinite Makeline a dezenas de novos endereços no Nordeste dos EUA, na região de Washington D.C. e no Texas até 2027.
Automação, mas não sem gente
Apesar do avanço robótico, a presença humana continua central na operação: funcionários abastecem os compartimentos de ingredientes, cuidam da embalagem e recebem os pedidos entregues pelo braço robótico. Rogers reforça que os conceitos de cardápio sempre dependerão de decisões humanas, a robótica entra para dar escala e personalização, não para substituir os chefs.
O movimento da Wonder acontece em um momento paradoxal para o setor: enquanto cadeias como McDonald’s e Burger King reforçam o treinamento de equipes para tornar o atendimento mais humano, Lore aposta justamente no caminho oposto, priorizando a redução de custos via menos mão de obra. “A grande visão é criar uma plataforma de alimentação totalmente autônoma, capaz de planejar, cozinhar e entregar sua comida de forma autônoma, para tornar a boa comida muito mais acessível”, afirma.
O próximo passo: entregas por drone e IA nutricional
A automação da Wonder não para na cozinha. A empresa já testa entregas por robôs terrestres em parceria com a Serve Robotics em cidades como Los Angeles e Chicago, e planeja iniciar entregas aéreas no Texas até janeiro de 2027, em parceria com a Zipline.
Internamente, a startup também desenvolve o Infinite Sauce Machine, capaz de criar centenas de molhos a partir de 152 ingredientes brutos, e uma plataforma de inteligência artificial chamada MEL, que cruza biomarcadores, composição corporal, preferências alimentares e metas de saúde do usuário para sugerir refeições personalizadas. Uma versão beta do MEL deve chegar no próximo ano.
E no Brasil? Um paralelo com a falta de mão de obra no setor
O problema que a Wonder tenta resolver com robôs, custo e escassez de mão de obra na cozinha, também é uma dor central do foodservice brasileiro, ainda que por razões distintas das dos EUA.
O setor de bares e restaurantes faturou R$ 495 bilhões no Brasil em 2025 e vem crescendo, mas quase todos os empresários relatam dificuldade para contratar. Em levantamentos recentes do setor, cerca de 90% dos donos de bares e restaurantes dizem ter problemas para preencher vagas, mesmo com salários médios em alta. Os cargos mais difíceis de preencher são justamente os que exigem mais técnica (sushiman, churrasqueiro e chef de cozinha), enquanto funções de entrada, como auxiliar de cozinha e garçom, também aparecem entre as mais procuradas e não preenchidas. Somente na capital paulista, estimativas do setor apontam cerca de 7 mil vagas abertas em bares e restaurantes.
O cenário reflete um apagão de mão de obra qualificada mais amplo na economia brasileira: um índice de escassez que era de 34% em 2018 saltou para a faixa de 80% a partir de 2021 e se mantém nesse patamar, atingindo o setor de serviços, responsável por cerca de 70% do PIB, com especial força. Executivos do setor descrevem a dificuldade de contratação e a alta rotatividade como um dos principais gargalos para o crescimento do foodservice no país.
A diferença em relação ao discurso de Marc Lore é de ênfase. Nos EUA, a automação da Wonder é vendida abertamente como uma forma de cortar custo de mão de obra e baratear o prato para o consumidor. No Brasil, a narrativa do setor tende a evitar o enquadramento de “substituição”: tanto redes quanto fornecedores de tecnologia para foodservice costumam insistir que IA e automação servem para tirar a equipe humana de tarefas repetitivas e desgastantes, não para eliminar postos de trabalho, em parte por causa do peso simbólico e regulatório do tema no país, e em parte porque a mão de obra brasileira ainda é, em termos relativos, mais barata do que a americana.
Ainda assim, a adoção já é mensurável: estimativas do setor apontam que cerca de 38% dos estabelecimentos brasileiros usam algum nível de automação e que perto de 28% dos bares e restaurantes já utilizam IA de alguma forma, número que, segundo projeções do setor, deve dobrar até o fim de 2026. Os exemplos mais citados ainda são modestos ao lado do robô da Wonder: totens de autoatendimento, chatbots de reserva e pedido por WhatsApp, fritadeiras e cozedores programáveis que dispensam supervisão contínua, e sistemas de Kitchen Display que agilizam a comunicação entre salão e cozinha. Robôs de preparo de refeição em escala, como o Infinite Makeline, ainda são raridade por aqui, algo mais visto em feiras internacionais do setor do que dentro de cozinhas brasileiras.
O paralelo, portanto, é real, mas assimétrico: enquanto a Wonder aposta a automação pesada como estratégia central de crescimento e redução de preço, o setor brasileiro por ora usa a tecnologia como um remendo pontual para um apagão de mão de obra que analistas já classificam como estrutural, e não como um problema passageiro que vai se resolver por conta própria.
Este conteúdo foi produzido por Fabio Costa, colunista convidado do Mundo Food Service. O autor responde integralmente pela apuração, redação e curadoria das informações aqui apresentadas.
CEO da Idea Shake Digital e cofundador da Mundo Food Service. Escrevo sobre IA, automação, marketing e transformação digital aplicada ao food service e negócios.
O Mundo Food Service é uma comunidade que conecta fornecedores aos bares, restaurantes e lanchonetes, oferecendo conteúdo estratégico, ferramentas e soluções para impulsionar o setor de alimentação fora do lar.




